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O tédio da vida

O tédio da vida

Maggie

Há uns dias, escrevia sobre como é inebriante ter um gato adormecido em cima do ombro e como estes animais vivem a sua vida inocentemente, sem saber que um dia deixarão de ser. Ora, na passada sexta-feira, a minha gatinha de 5 anos partiu. No dia anterior, na quinta-feira, de manhã, levei-a ao veterinário para realizar uma endoscopia. Andava a vomitar há bastante tempo e tanto o raio-X, como as análises ao sangue, como a ecografia, não apontavam nenhum problema. Assim, o passo seguinte para descobrirmos o que ela tinha era realizar uma endoscopia. O exame correu lindamente, os veterinários conseguiram perceber qual era o problema: estava repleta de úlceras no estômago. Com uma medicação, podíamos tratá-la e continuaria a ter uma excelente qualidade de vida.

No entanto, algo absolutamente inesperado aconteceu. A anestesia teve um efeito adverso. Quando despertou, estava com uma hiperexcitação. De olhos abertos e língua de fora, mexia as patinhas deitada, como se caminhasse para algum lado. A anestesia afetou-lhe o cérebro seguramente. Fiz-lhe festinhas, falei com ela, porém, ela parecia não me ver ou ouvir, estava a olhar para o vácuo fixadamente. Durante essa mesma madrugada, teve uma paragem cardiorrespiratória. Os veterinários ainda tentaram reanimá-la, mas sem sucesso.

Não tenho palavras para descrever aquilo que senti quando soube da notícia. Levei-a ao veterinário para realizar um exame banal, sem saber que nunca mais a veria. Deixei-a lá e a última memória que tenho dela quando ainda estava lúcida é a de sentir as suas patinhas agarrarem-me quando a tirei da transportadora para pesá-la. Ela agarrava-se sempre a mim, porque tinha medo de estar em locais que não a sua casa... Consciencializar-me de que a Maggie (o nome da gatinha) não estava mais cá foi muito difícil. Parecia-me surreal. 

Inúmeras memórias assaltam-me diariamente desde sexta-feira. Tínhamos uma relação muito próxima, repleta de amor e carinho. Todas as noites, ela deitava-se na minha almofada, restirando a cabeça no topo da minha. Ronronava desenfreadamente até adormecer e ouvir aquele som constante era tão reconfortante. Recordo-me também de que quando chegava a casa, ela já estava na porta para me cumprimentar. Seguia-me sempre para onde quer que eu fosse e quando, finalmente, me sentava, ela, de imediato, vinha sentar-se no meu colo.

Estes primeiros dias sem ela têm sido dolorosos. Por mais que me tente distrair, é-me impossível, pois todos os cantos da casa me recordam dela. O sofá lembra-me dela a dormir em cima dele, junto a mim. A televisão recorda-me da preocupação que sentia sempre que saltava para cima dela. A cozinha traz-me recordações dela a deitar-se de barriga para o ar, em tom de brincadeira, enquanto rolava de um lado para o outro. Não há um único compartimento, um único espaço em casa que não tenha os fantasmas da sua presença. A sua ausência apoquenta-me.

Agora pergunto-me, como é que se ultrapassa a ausência do nosso animal? Quando é que as recordações deixam de ser tão dolorosas e passam a ser saudosas? Dizem que o tempo cura tudo, mas este nunca a trará de volta e saber que nunca mais a verei parte-me o coração de uma forma indescritível.

Sinto-me, porém, muito agradecida por tê-la conhecido e por ter tido a oportunidade de partilhar os meus últimos cinco anos com ela. Dei-lhe todo o amor do mundo e recebi-o de volta e não há maior felicidade do que esta: amar e ser amado pelo nosso animal. Lembrar-me-ei sempre dela como uma gatinha meiga, afetuosa, doce e, sem dúvida alguma, como um dos seres vivos mais importantes que pela minha vida passou.

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