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O tédio da vida

O tédio da vida

O desencontro com o padrão

À força de querer enquadrar-me,

Padeci da inexorabilidade de desencontrar-me.

Vislumbrei-me a mim mesma,

Como se alheia de mim,

E não me reconheci nesta minha reflexão.


Deixei conduzir-me pelo outro,

Como uma ovelha pelo pastor.

E quando, momentaneamente,

Emergia à superfície,

Era sempre impulsionada a

Mergulhar de novo

No mar da padronização social.


Um dia, cansada da monotonia

De ser como o outro,

Compreendi que não há

Maior liberdade do que

Sermos peculiares.


Distanciei-me dos padrões,

Revesti-me do singular e individual eu

E deambulei pela cidade,

Sentindo o trinfo de não pertencer,

De não partilhar de todo o tumulto da gente.

 

 

Se eu soubesse escrever sobre coisa alguma...

Se eu soubesse escrever sobre coisa alguma, escreveria sobre o quão inebriante é ter um gato adormecido em cima do ombro. Um respirar pausado e sonolento, umas orelhas hirtas e prontas, um corpo mole e quentinho, revestido de um pelo branco, castanho, preto e cinzento. A cada carícia, espreguiça o corpinho, desfrutando da placidez de uma tarde de verão que não esquenta.

Este gato, que não sabe que é, por não ter consciência de si, percorre os seus dias tranquilamente, dormindo horas a fio. Quando desperta, come e coloca-se na janela, a observar a citadina rua. E os seus dias não são mais do que isto: uma sonolenta e leve passagem, uma existência plácida livre de excessos ou inquietações.

Não tendo a consciência da sua efemeridade, não necessita de estar com pressas. Na sua eternidade inocente, deixa-se enlevar pelo sono e pelos sonhos, numa nuvenzinha de levezas quotidianas e sossegos desmedidos.