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O tédio da vida

O tédio da vida

Natureza

 

 

Vejo pela janela do metro a relva molhada. Chove com intensidade. O seu cheiro, ou a ideia que eu tenho dele, invade-me o espírito. Quero fazer parte dela, fundir-me com ela. Saber que a minha existência não interfere a vida de ninguém. Ou mesmo, que não sou ninguém, apenas uma parte da natureza. Não seria tudo tão simples se eu me pudesse deitar na relva e sê-la? Para quê continuar a ser um humano, sujando-me e ficando doente? Plantas, deixem-me juntar-me à vossa placidez de vida. Às vezes pisam-vos ou matam-vos, bem sei, porém vocês não pensam. Levam uma vida calma, não sabendo que um dia irão morrer. Por esse motivo, são eternas e eu também o quero ser.

 

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Rotina

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Acordo. Mais um dia dividido entre o desejo de morrer e a esperança de viver. Sinto-me desenquadrada. Sei que não pertenço a este sítio, repleto de pessoas banais que têm o futuro já ditado. Quanto a mim, tudo o que virá é incerto, provavelmente só desgraças. A minha vida tem sido assim, uma acumulação de desgraças sem importância, em termos globais. Levanto-me da cama com vontade de me deitar nela. O frio invade o meu corpo e deixa-me paralisada, rija. Já sei que o meu dia será mau, mas nada posso fazer para fugir a ele. Que bom seria poder fugir aos infortúnios! Avisto a minha roupa. Não sei o que hei de vestir. Só sei que tudo me fica mal. Todos se me afiguram tão elegantes nos seus trajes. Que contraste que os outros fazem comigo. Pequeno-almoço. Penso no quão absurdo é viver. Que fazemos nós aqui? Para quê que tenho de estudar ou trabalhar? Por que não ser verdadeiramente um animal e sobreviver apenas? Ah, pois. A racionalidade. O pensamento. Tudo isso nos exclui do reino animal e nos eleva a outra categoria. Somos humanos, embora de humanidade não tenhamos nada. Complicamos o já complexo. Achamos difícil o simples. Somos assim, nós. Saio de casa. A brisa da manhã enche-me o peito de esperança, esvazia-me a alma de todos os defeitos. Renasço. Só me apetece encontrar um campo e fundir-me com ele. Eu quero fazer parte da relva, das plantas, de tudo. Enfim, sou só um ser humano iludido com a frescura da manhã. Entro no metro. À minha volta, vejo caras desconhecidas e algumas conhecidas. Escolho as desconhecidas. Estão todos imersos no telemóvel, excluindo um ou dois indivíduos que optam por ler um livro. No que me diz respeito, preferiria ler um livro, mas em sítios públicos, em que há sempre barulho, não me consigo concentrar. Escolho ouvir rádio, enquanto saboreio as paisagens, em constante mudança, que vão surgindo. Pessoas entram. Pessoas saem. E eu fico. Viagem longa, a minha. Saio do transporte. Ainda tenho um caminho de quinze minutos para percorrer. Quinze minutos de preocupação. Vejo constantemente as horas, não vá o tempo evaporar-se e eu chegar atrasada. O tempo não existe, é uma ilusão, portanto, para quê preocupar-me com isto? Que chatice esta de viver. Cansa. Esgota. Desfaz.

Poema dos Vs

Vejo as gaivotas a voar

E um vasto mar esverdeado,

Sei que não vivo de verdade.

 

Faço uma viagem à véspera

E olho-me a vegetar.

Vacilo. Sou desprezível. Miserável.

Vulcão que expele raiva e vergonha.

 

Talvez o vento me sopre ao ouvido

Um bafo suave de valentia

Ou de vontade de voar no vasto céu.

 

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